Latria à Empresa

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Em meio a discussões enérgicas sobre a “Reforma Política” atualmente em processo de votação no Congresso Nacional, resolvi revisar meus conhecimentos parcos acerca do tema e compilar num artigo para que sejam livremente discutidos.

Em primeiro lugar, ao falar em Reforma Política, há uns 10 anos, viria a minha mente a retirada das empresas da participação em campanhas. Dez anos atrás, não hávia dúvidas para quem discutia política. Este é o ponto crucial de uma reforma política no Brasil, país em que o Poder Econômico domina o Poder Político desde os tempos coloniais. Interesses particulares sempre se alastraram na estrutura estatal, que serve a todo tipo de interesse, menos o do povo, para o qual foi criada.

Pensei: mas esta reforma já foi concretizada. Retirou-se em 2015 a possibilidade de legal participação de empresas em campanhas. Que tipo de Reforma Política seria a de hoje? Ora, assim como a reação do 9 Termidor, a Revolução Branca na Rússia e a Dinastia dos Whig na Inglaterra, me parece que esta nova Reforma Política é mais uma reação conservadora ao progresso conquistado pela Reforma Política anterior.

Apesar de há 10 anos não haver muita dúvida sobre o prejuízo que as empresas causavam ao participarem das campanhas, com a chegada da reforma, o que sobram são críticas. Neste esboço, abordarei apenas uma.

Retirada das Empresas do Cenário Político:

Como de hábito, um amigo veio puxar conversa sobre política comigo: “Um absurdo o que fizeram com esta história de financiamento público de campanha”. Lembrei rapidamente de um artigo do Reinaldo Azevedo que li no ano passado, o qual foi sem dúvida o primeiro debuxo que li com este tipo de opinião e com esta expressão “financiamento público de campanha”.

Respondi: “Há controvérsias, amigo”. E lhe expliquei o que segue.

O financiamento de campanhas eleitorais por empresas não é democrático. As empresas não são povo. Não. Não o são. O dono da empresa, hoje, ainda poderá financiar campanha com seu próprio dinheiro; não com o dinheiro da empresa.

Veja, amigo: TODAS as empresas, sem exceção, têm como finalidade inarredável a obtenção de lucro. Sem o lucro, há a falência. As atividades da empresa não seguem uma ideologia, como acreditava inocentemente o meu amigo. Quem tem ideologia são as pessoas, não as empresas. E isso não é, de forma alguma, uma crítica à atuação empresarial.

As empresas fazem parte do aspecto dinâmico de um país, criativo. Em situações normais, os empresários usam todo o arsenal para assegurar a satisfação do cliente. Não pela satisfação em si, lógico. Lembra? O pano de fundo é o lucro. Não devemos esquecer disso. Mas não há dúvidas de que, EM SITUAÇÕES NORMAIS, o lucro só é galgado se houver a satisfação do cliente, seja o cliente um ente público, particular ou o povo. Mas o que importa? Não há nada de errado em perseguir o lucro, EM SITUAÇÕES NORMAIS.

Veja: insisti nas letras garrafais, porque espero que o leitor note que todo o parágrafo anterior só está correto se estivermos numa competição justa entre as empresas. Isso que chamo de “situação normal”.

O que acontecia antes da reforma política de 2015, meu amigo, era que empresas investiam em campanhas. Mas qual é mesmo a finalidade de uma empresa? O lucro. Por que uma empresa investiria num candidato se não para conseguir lucro?

Meu amigo respondeu: “as empresas têm interesses em seus setores, têm ideologia”. Respondi: “Não, meu caro, isso não é ideologia; isso é pura e simples busca do lucro”. A empresa só está naquele ramo de atividade porque há lucro. Veja: o dono da empresa pode amar o que faz e adorar o ramo de atividade. A empresa e seu patrimônio, não! Se ela investe, terá que ter retorno. Mesmo quando faz caridade, a empresa visa o marketing e marketing gera lucro. Caridade é coisa de gente.

Vou repetir aqui, mais uma vez, para não haver dúvida. Não condeno a prática empresarial. E até acho muitíssimo importante para a sociedade que as empresas tenham um comprometimento social, mesmo que gere uma boa imagem e, consequentemente, o lucro. Neste período acirrado de discussões, falar um simples fato incontroverso, às vezes, pode condenar toda sua argumentação aos olhos do leitor. É o chamado tabu, não é mesmo?

A questão é que, quando as empresas investem em campanhas, elas estão visando algo do candidato se este se eleger, certo? Veja: a empresa está tirando capital de setores como marketing, recursos humanos, insumos, tecnologia e colocando em campanha eleitoral.

O que uma empresa de construção quer de seu candidato? Meu amigo, ingenuamente, eu diria, acredita que a empresa busca um candidato que aprove leis para o ramo da construção que facilite o mercado, ou que diminua os impostos. Isso tudo é secundário.

Está vendo essa rua toda cheia de buracos em frente da sua casa? E essa placa de trânsito que ao invés de refletir a luz dos automóveis, parece que a absorve para a escuridão. E aquela obra inacabada de um hospital de ponta que prometeram na sua cidade?

Saindo do ramo da construção, sabe a merenda das crianças que não foi entregue na escola pública? E o equipamento médico caríssimo que o Estado pagou e nunca funcionou?

Todos esses fatos têm em comum licitações. Para todo gasto público, há todo um procedimento que tenta avaliar as empresas em pé de igualdade, para que o Estado só gaste dinheiro com o melhor fornecedor. O nome deste procedimento é licitação. Ao ver estes problemas, eu sempre me questiono, como esses casos podem acontecer com tanta frequência no Brasil se temos um procedimento extremamente rígido de Licitação? A resposta, meu amigo: fraude. Licitações fraudulentas é um câncer no Governo Brasileiro.

Voltando para o financiamento de campanhas por empresas…

Para a fraude em licitações ocorrer, é preciso haver cooperação de dentro e de fora da máquina pública. Um conluio entre agentes públicos e privados. Mas veja: não é qualquer agente público, porque há a sempre a hierarquia que controla os servidores. A fraude tem que partir de cima, da cúpula, da POLÍTICA.

Como uma empresa consegue sangrar os cofres públicos? Com um contrato administrativo desequilibrado: conseguindo um preço exorbitante para o fornecimento de produtos/serviços de baixíssima qualidade. Veja: O que seria isso além de puro LUCRO???

Espero que o leitor esteja seguindo a linha de raciocínio, pois esta concatenação de ideias é imprescindível para a evolução de nossa democracia. Explicarei melhor agora com o processo completo.

  1. A empresa, em busca de cada vez mais lucro, procura contratos administrativos desequilibrados, em que seu serviço/fornecimento não seja custoso e o retorno seja exorbitante.
  2. No entanto, através de licitações limpas, não consegue concretizar seu intento. A saída é tentar uma licitação fraudulente (afinal seus concorrentes já estão fazendo isso). Procura cooperação de dentro do governo, mas tem que ser da cúpula.
  3. A abertura que encontra é o financiamento de campanha eleitoral, através do qual consegue o compromisso de candidatos políticos em troca de uma eleição quase certa.
  4. Após a eleição de seu candidato, o contrato administrativo é realizado e o maior prejudicado é o povo.

Veja: essa condições definitivamente não são as normais. Por isso, a empresa, perseguindo o lucro, termina por causar a insatisfação de seu cliente.

O título deste rascunho é “Latria à Empresa”, ou seja, louvor à empresa. E não foi irônico. A situação mostrada não é uma situação de livre iniciativa. É o que se chama de “domínio do poder político pelo poder econômico”. As empresas são benéficas à sociedade quando estão em competição justa. A medida que uma empresa consegue uma licitação fraudulenta ou uma isenção tributária, entra capital em seus cofres que irá desequilibrar a competição com as demais empresas do setor que ou entrarão em falência (por não poderem competir) ou buscarão o lucro seguindo a primeira.

Uma vez, um empresário me disse: “no Brasil, é impossível sobreviver como empresa se não houver uma amizade com políticos e isso atrasa muito nosso país”.

Minha conclusão, amigo, é que o financiamento PRIVADO de campanhas eleitorais por empresas não favorece empresas, mas apenas a corrupção. Empresa, em seu campo de atuação, é ótima. Mas precisamos das empresas e dos políticos separados.

Por isso, diz-se que a Reforma de 2015, abriu um financiamento público de campanha, já que os doadores pessoas físicas não têm tanto poderio quanto as empresas. Pensou-se num fundo público, como acontece em alguns países. No entanto, a reforma atual quer dilacerar as conquistas de 2015. Se vocês querem o financiamento público, segurem os bolsos porque faremos uma sangria. Assim, não dá. Mas fico por aqui.

Sobre os outros pontos da reforma, deixarei para um próximo esboço.

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“Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos”

Jout Lola Malala

    O título já antecipa a acidez do texto de hoje. Li essa frase no texto “Parabéns, atingimos a burrice máxima”, de Eliane Brum para o El País, o qual se trata basicamente de um desabafo que poderia ter vindo de qualquer pessoa minimamente aceitável. Sim, digo mesmo: MINIMAMENTE ACEITÁVEL para o convívio social. Não adianta falarmos que a autora é de esquerda, de direita, de cima, de baixo, que sua ideologia é assim ou assado. É preciso cautela.

Muitos tentam flexibilizar exageradamente o limite entre ter uma opinião diferente da sua e ser simplesmente um belo de um mal caráter. Em seu texto, a colunista inicia sua reflexão a partir do furor causado pela frase mundialmente conhecida da filósofa Simone de Beauvoir: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”.

Diante de sua limitada capacidade de contextualização, não apenas alunos, mas mesmo professores, políticos, artistas, promotores, economistas e uma diversidade inimaginável de pessoas, antes mesmo de pesquisar minimamente sobre o assunto, começaram a atacar o objeto de sua humilhação: aquela mulher que tinha proferido aquela “enigmática” frase. Do topo de sua ilha de presunção, pensavam “se eu não conheço, só pode ser uma louca”. Obrigados a pensar, produziram as mais bizarras e preconceituosas conclusões.

Pois eu faço questão de explicar a tal frase esfíngica para as pessoas que nunca leram sobre o Movimento Feminista na vida e que, mesmo assim, já formaram opiniões tiradas diretamente de seus umbigos. Beauvoir nada teve a ver com os atuais partidos brasileiros. Escreveu a obra considerada o marco inicial da “segunda onda” do movimento feminista: O Segundo Sexo, de 1949. A frase usada pelos examinadores do ENEM foi tida como símbolo da segunda onda do feminismo que passou a diferenciar gênero e sexo. Aquele como uma construção social e este, como o elemento biológico ligado aos órgãos sexuais. Os papeis sociais (gêneros) desempenhados pelos diferentes sexos passaram a ser estudados de forma mais clara. Essa distinção foi essencial para a compreensão de que alguns costumes, de fato, se relacionam com o sexo (biológico), outros, apesar de serem peculiares a cada sexo, não se relacionam com as características biológicas, mas com a manutenção do poder de um grupo de pessoas sobre outro.

Não é difícil entender essa conclusão. Basta lembrar da história de Malala, a menina paquistanesa baleada por desafiar a sociedade indo, pasmem, à escola. O que tem na escola que impede pessoas com o órgão sexual feminino de se fazerem presentes? Seria o útero incompatível com livros? Ou seria uma forma de privar as mulheres do conhecimento e tornarem-nas mais suscetíveis a aceitação de seu papel social?

Muitos podem gritar: “Mas isso é no Paquistão! O Brasil não é machista!”. Tenho certeza que os homens paquistaneses que atiraram em Malala também acreditam que não o fizeram por machismo, mas por algum motivo justo e digno. Mas não precisamos ir muito longe. A semelhança entre esse caso e inúmeros ocorridos cotidianamente em nosso país tropical (abençoado por Deus) é, no mínimo, ultrajante. O que dizer da dançarina da banda Aviões do Forró, do sequestro e cárcere privado de Eloá, em São Paulo, do pai que raspou o cabelo de suas filhas para mantê-las longe dos namorados, da Maria da Penha, além de tantos outros com os quais as delegacias das mulheres precisam lidar todos os dias?

Embora, para pessoas minimamente racionais, esses fatos fazem todo sentido e são questões relacionadas visível e exclusivamente ao gênero, ao papel social imposto às mulheres, escutei na semana passada um conhecido meu resmungando: “essas mulheres reclamam do estupro, mas ninguém lembra que os homens são diariamente estuprados nos presídios”. Minha reação? Respirei fundo e saí do mesmo recinto do palerma.

Ora, claro que o estupro em presídios é um crime nauseante. Devemos reivindicar medidas estatais contra essa realidade. No entanto, enquanto ser estuprado é o maior medo dos homens ao entrarem num presídio, as mulheres convivem com esse medo o tempo todo e possuem estatísticas alarmantes ao seu desfavor. E esse crime deve sim ser punido de forma severa. A construção social (legislativa) em torno dele, no entanto, torna o fardo sobre as mulheres mais pesado do que sobre os homens. O Congresso claramente está construindo um obstáculo maior às mulheres vítimas deste crime. A sociedade brasileira (representada pelo Poder Legislativo) está dando maior importância ao papel social/religioso – da mãe incondicional, da piedosa, expiadora dos pecados da humanidade, passiva, inerte – imposto à mulher à força, em detrimento da sua dignidade humana. Para os que defendem o projeto, é melhor criar exigências à mulher violentada do que facilitar sua proteção através do aborto, que diminua o sofrimento causado pela violência. Para os homens de colarinho branco, radicais religiosos, a mulher virtuosa deveria aceitar sua condição e o destino oferecido por Deus. Perdoaria, entenderia, amaria. Além de retomar a necessidade do exame de corpo de delito para comprovar a violência sexual antes do atendimento médico, o projeto também retira do atendimento obrigatório o acesso à pílula do dia seguinte.

Foi também aqui no Brasil que várias blogueiras (como a Professora da UFCE, Lola Aronovich, e Júlia Tolezano, a Jout Jout) das quais sou admiradora convicta sofreram ataques e ameaças por escreverem textos como este aqui ou apenas fazerem vídeos expondo “tabus” sobre questões existenciais femininas. “Mas, a mulher virtuosa não tem questão existencial”, pensam. “Teriam as mulheres uma existência além do papel social imposto por seu gênero, além das famílias, além dos maridos, além das crianças?”. Querem nos impor o que pensar, querem calar as divergentes da regra, com concepções de vida distintas do padrão, que conquistam cada vez mais pessoas.

O que seria isso senão pura maldade? Burrice apenas? Acho que não. Há bandidos que violentam outras pessoas fisicamente. Outros violentam a sociedade com a amargura de seus pensamentos. Propagam ódio, ignorância e ideias inúteis, ou pior, perversas, e, com elas, tentam conquistar o maior número de ignorantes seguidores. Definitivamente, a linha que separa ignorância da maldade é bem tênue. Conheço mestres e doutores que acham que feminismo é balela, que o erro da ditadura foi ter matado, torturado e prendido outros além dos comunistas. E não estou tirando esses exemplos da minha cabeça. Eles infelizmente atingiram primeiro meus ouvidos após serem proferidos em alto e bom som por seus defensores. Descaradamente, acadêmicos redigem teses para defender que o Movimento Feminista é inútil, criando teorias mirabolantes de que Beauvoir é uma “baranga” ou seja lá o que brotar da imensidão exotérica da mente dessas pessoas.

Eu não creio em exploração, mas que ela existe, existe…

Blog

Uma das melhores coisas de fazer mestrado em Direito Econômico é que a produção de minha dissertação me fez “obrigatoriamente” revisitar meus livros de história que tanto me proporcionaram deleite nas primaveras de minha adolescência. Reler esses livros com a cabeça que tenho hoje é ainda mais instigante do que antes. Tudo que leio é inspirador e me faz compreender muita coisa ao meu redor. Tudo se conecta. Descobri até que meu avô teve uma ligação com a Guerra da Coreia. Mas isso é tema para uma outra postagem…

Enfim, não me propus a escrever nesta postagem sobre a história da minha família, mas sim sobre o tema exploração. Tenho visto, no mestrado, muitas correntes econômicas disputarem as rédeas do desenvolvimento nacional. Para defender suas teses, muitas vezes importadas de países “mais desenvolvidos”, desconsideram o contexto histórico e as origens do desenvolvimento x subdesenvolvimento.

Há pessoas que acreditam que os países desenvolvidos adquiriram esta posição, porque seu povo é superior, mais trabalhador, mais ético e assim vai. Esse pensamento, mais do que próximo à linha nazista de raciocínio, desconsidera a exploração através da FORÇA que causou essa disparidade econômica atual. E nem se fale que é teoria da conspiração ou mania de antiamericanismos ou de complexo de povos colonizados.

É aquela velha história: “Yo no creo en ‘exploración’, pero que la hay la hay”.

Nossas raízes de colônia são incontestáveis e não podemos importar modelos econômicos de países “desenvolvidos” com a ilusão de que “se deu certo para eles, dará para nós também”, pois esses modelos se baseiam numa realidade de nações diferentes da nossa. Se não eram colonizadoras, certamente não foram colônias de exploração.

Deixo aqui portanto trechos de livros que mostram como o uso da força e o sofrimento dos negros africanos foi imprescindível para a industrialização europeia que se perpetua até hoje em detrimento da miséria alheia. A economia da época, baseada tão somente, na crueldade e na impiedade efetivada pelos cristãos para com os povos subjugados foi o que criou as bases para a primarização da economia dos países subdesenvolvidos.

Enquanto a nobreza e burguesia europeias, com suas mulheres – em espartilhos, tementes a Deus – usufruíam do açúcar, nos chás e chocolates, seus “homens de bem” açoitavam outros seres humanos em terras estrangeiras, forçando-os a aceitar as regras europeias, brancas, tudo isso sob o estigma de que os cristãos sempre estão do lado bom:

O formidável ressurgimento da escravidão, adormecida como instituição durante a Idade Média, deve-se principalmente ao aparecimento da América como colossal reserva de matérias-primas. O braço escravo foi, no nosso continente, colocado no trabalho para criar uma corrente de mercadorias que se destinava aos mercados europeus. A América, enriquecida por sua vez pelo trabalho escravo, criou mais adiante o seu próprio mercado interno e se transformou em excelente consumidora da produção europeia. Foi este um processo capitalista cuja veracidade histórica é hoje aceita por historiadores e economistas, os primeiros entre eles os da Inglaterra e dos Estados Unidos. A escravidão americana foi o mais extraordinário motor que teve a acumulação do capital comercial europeu e este, por sua vez, a pedra fundamental sobre a qual se construiu o gigantesco capital industrial dos tempos contemporâneos – o capital industrial que, necessitado como esteve cedo de produtores e consumidores livres, atacou, desde o século XIX, a instituição da escravidão como funesta aos seus propósitos. Indiretamente, pois, a escravidão do índio e do negro tornou-se indispensável para que, mediante um secular processo de acumulação capitalista, a Europa ocidental pudesse ter indústrias modernas e os Estados Unidos alcançassem, no século XIX, seu espetacular desenvolvimento econômico (Sérgio Bagú, Economia de la sociedad colonial – Ensayo de historia comparada de America Latina, Buenos Aires, 1949, pág. 36).

Com o desenvolvimento da produção capitalista durante o período manufatureiro, a opinião pública europeia foi despojada dos últimos resquícios de consciência e de pudor. Cada nação fazia uma glória cínica de toda infâmia capaz de acelerar a acumulação de capital. Leia-se por exemplo os ingênuos “Anais do Comércio”, do honesto Anderson. Este bravo homem admira como traço de gênio da política inglesa que, após a paz de Utrecht, a Inglaterra tenha arrancado à Espanha, pelo tratado de Asiento, o privilégio de fazer, entre a África e a América espanhola, o tráfico de negros que fazia, até então, apenas entre a África e suas possessões das Índias Ocidentais. A Inglaterra obteve assim o fornecimento, até 1743, de 4.800 negros por ano à América espanhola. Isto lhe serviu, ao mesmo tempo, para cobrir com um véu artificial as proezas de seu contrabando. Foi o tráfico negreiro que estabeleceu os fundamentos da grandeza de Liverpool; para esta cidade ortodoxa o tráfico de carne humana constituiu todo o método de acumulação primitiva. E até os nossos dias as notabilidades de Liverpool cantavam as virtudes específicas do comércio de escravos ‘que desenvolve o espírito de empresa até a paixão, forma marinheiros incomparáveis e proporciona dinheiro enormemente’ (Karl Marx, Le Capital, Paris, 1949, pág. 305, IV).

Destaque ao trecho: “Desenvolve o espírito de empresa até a paixão”… Isso me lembrou muito o artigo de Rodrigo Constantino sobre o Livre Comércio de órgãos humanos, defendendo que essa “saída” levaria a uma eficiência no “mercado” de transplante de órgãos, incompatível com o sistema gratuito! A coisa mais absurda que já vi ser escrita por alguém com ensino superior! Cabe a nós o questionamento: será que devemos sempre alimentar um “mercado” em detrimento da “carne humana”?

Nacionalismo x Entreguismo

Esse período eleitoral tem sido extremamente frutífero nas discussões sobre economia. Sempre há aqueles que preferem se abster de suas opiniões. Aqueles que acham “brega” quem expõe opiniões políticas. Eu, pessoalmente, acho magnífica a explosão democrática e a discussão sobre os mais diversos temas de economia, mesmo por aqueles que nunca abriram um livro sequer sobre o tema. Depois de ver inúmeras postagens extremamente preconceituosas sobre Cuba, vídeos de pessoas gritando e xingando cubanos em nosso território, fui revisar um pouco a história do país e tentar entender este ódio que alguns brasileiros vêm desenvolvendo por nossos “hermanos”. Claro, não encontrei nada que Cuba tivesse feito contra nós. Na verdade, historicamente, Cuba é o grande obstáculo de toda a política estadunidense de crédito internacional, desde a Doutrina Monroe, passando pelo Big Stick, até recentemente o Consenso de Washington.

Poucas pessoas sabem que o IDH cubano é o 44º maior do mundo, sendo considerado um país de “muito alto desenvolvimento humano” (cf. aqui), enquanto o Brasil está na 79ª posição. Claro que Cuba vem passando por uma recessão enorme e enfrenta graves problemas internos. Mas esse é um dado que não podemos desconsiderar. Porém, acima de qualquer coisa, a ilha, a 150 km da Flórida, incomoda muito a política da “mão caridosa” estadunidense, que se baseia na concessão de crédito aos países da América Latina, tornando-os mais submissos a suas ingerências. Exemplo disso foi o que ocorreu com Getúlio Vargas que, apesar de não ter adotado uma ortodoxia econômica, enfrentou certa restrição de crédito por parte dos EUA, quando os interesses brasileiros conflitavam com os estadunidenses (cf. aqui).

Quando discutimos o problema dos gastos públicos em ambiente acadêmico, muitas vozes se levantam no sentido de que quem é contra as privatizações são retrógrados e nacionalistas. Nacionalismo, puro e simples, a la Policarpo Quaresma, é algo prejudicial, sim, pois não é razoável nos apegarmos emocionalmente a algo que nos faz mal, apenas pelo fato de ser nacional. No entanto, a manutenção de um aparato nacional de fornecimento de bens e serviços vai muito além de simples nacionalismos. Relaciona-se à estabilidade no fornecimento de serviços que concretizam direitos fundamentais em nosso país. A onda neoliberal que dominou o mundo desde a década de 70 e o Brasil, desde 90, objetivava o desapego a determinados setores de produção para fazer com que o Estado gastasse menos. O Consenso de Washington, neste contexto, trata-se de um conjunto de medidas formuladas em 1989, por instituições financeiras situadas nos EUA para “auxiliar” os países num crescimento econômico. “Coincidentemente”, estas medidas se alinhavam perfeitamente aos interesses imperialistas estadunidenses, no sentido de tornar os países mais receptivos aos crédito externo e às privatizações às empresas estrangeiras. Essa onda neoliberal tornou os países extremamente vulneráveis às oscilações da economia global. O fornecimento de serviços essenciais ficou sob a responsabilidade de empresas estrangeiras. Durante a grande crise de 2007-8, houve a fuga desse capital estrangeiro e os países dependentes dele entraram em recessão: Argentina, Irlanda, Grécia, Portugal etc. A Argentina havia adotado de forma muito radical todas as medidas do Consenso de Washington e hoje tenta reverter o quadro, implementando políticas nacionalistas tardias. Nacionalistas no sentido de menos vulneráveis ao mercado externo. A cobrança das dívidas pelos fundos abutres vem massacrando a frágil economia argentina (cf. aqui) em detrimento da qualidade de vida de nossos hermanos do sul.

Em palestra realizada na UFRN, ouvimos o Professor Dr. Adjunto em Direito Político da Universidade de la Plata, Ricardo Sebastián Piana, alertar sobre os erros cometidos no passado pela Argentina, relacionados ao Consenso de Washington, que culminaram em sua atual recessão. Mas a falta da irmandade latino-americana já prenunciada por Bolívar e Guevara, nos torna cegos às experiências de nossos semelhantes e muito mais interessados em escutar os conselhos de nosso maior opressor.

Além disso tudo, atualmente, ganha notoriedade mundial o Programa norueguês Petróleo para o Desenvolvimento (cf. aqui) baseado na distribuição da riqueza de seu Petróleo, caracterizado pela grande intervenção do Estado nos contratos firmados no setor. A Noruega lidera atualmente o IDH e tornou-se exemplo mundial em relação às políticas com o Petróleo. O governo brasileiro recentemente enviou delegações para que pudéssemos implementar programas semelhantes.

O descobrimento do Pré-Sal no Brasil abriu portas para um possível desenvolvimento nos termos noruegueses, mas a iminência de um governo altamente neoliberal põe em risco qualquer esperança para a República das Bananas.

Fácil é concluir que retrógrados são aqueles que ainda não se atualizaram com os últimos acontecimentos mundiais e que ainda creem que uma política neoliberal irá realmente tirar o Brasil das amarras do Subdesenvolvimento.

08 de março: dia de reflexão!

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Assistindo a um belíssimo (mas triste) documentário na Home & Health sobre a degradação dos direitos das mulheres na Índia, impossível deixar de identificar semelhanças com a nossa cultura (prostituição, relações “amorosas” desequilibradas). Acho interessante como essa reflexão é tão importante na vida de homens e mulheres e extremamente necessária para mudar o comportamento de cada um de nós acerca da repressão feminina e, mesmo assim, é tão abafada.

Alguns assuntos (como violência sexual e doméstica) podem ser pesados para falar no dia-a-dia, mas outras “pequenas” violências cotidianas podem ser diariamente esclarecidas. Esses pequenos esclarecimentos são importantes, por exemplo, para os jovens no seio familiar, na divisão das tarefas domésticas, no como proceder na paquera etc. São oportunidades para o incentivo à reflexão que impede que atos discriminatórios sejam aceitos como norma.

Não deveria ser um tabu esclarecer que não se deve apenas engolir e reproduzir os tradicionais comportamentos “de homem” e “de mulher”, porque alguns deles são prejudiciais para a felicidade e liberdade de boa parte da população. A reflexão sobre eles é sempre importante. Quando nascemos em uma sociedade opressora (como a nossa), todos nós (homens e mulheres) também aprendemos a reprimir.

Fico triste quando vejo nas redes sociais pessoas desmerecerem a luta dos feministas  como se fossem ou mulheres chatas, todas lésbicas, recalcadas ou reclamonas ou – no caso dos homens – gays. Por favor, tentem não fazer isso! Os feministas estão se expondo por todos nós, tentando nadar contra a correnteza. Esse tipo de repressão é o que faz nossa sociedade regredir. Quando desmerecemos TODAS as ideias feministas ao confundi-las com desejos individuais de alguns (pagar meia entrada em boates, nunca pagar a conta etc.), tiramos a importância de um movimento tão sério e relevante e fortalecemos a repressão. Os feministas não são chatos. Muito pelo contrário: são a única esperança para muitas mulheres em situações de degradação.

Feliz dia das mulheres para TODOS nós!

O Lobo de Wall Street: Três Horas de Tortura

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Depois de assistir alguns filmes bem perturbadores, daqueles que nos fazem forçosamente refletir sobre questões delicadas, abandonar estigmas, ver o outro lado, eleger novas prioridades e guiar-se para novos nortes ou, até mesmo, apenas perturbadores em si – como é o caso de “Biutiful”, “Ensaio sobre a cegueira” ou “Synédoque, NY” -, entrei na sala de “O Lobo de Wall Street” esperando algo mais leve, menos maçante, mais imagens, menos reflexão. Esperava uma nova versão de “Prenda-me se for capaz”. Fui ao cinema, claro, desinformada.

Saí… com aquela sensação de peso e repulsa… novamente… Mas por quê?

Foram três horas de imagens torturantes e diálogos patéticos que se chocam frontalmente com tudo aquilo em que acredito na vida. Saí odiando tudo aquilo que acabara de enfrentar. Saí me perguntando: Pra quê alguém faz um filme exaltando tudo aquilo que me irrita? E jurando nunca mais assistir porcarias do tipo. Meu estômago prefere algo do tipo “Frances Ha” ou qualquer coisa delicada e singela. Tentei entender, no entanto, a opinião de meu amigo que saiu do filme adorando. A opinião é daqueles que acreditam que o roteirista Terence Winter e o diretor Scorsese tentaram expor de forma crítica uma vida guiada sem barreiras éticas e de acordo apenas com o modelo de felicidade imposto pela sociedade neoliberal. Supostamente, a intenção era de crítica da realidade.

Apesar disso, notei que muitas pessoas opinaram no sentido de que a vida do protagonista é aquela almejada por todos. Muita gente saiu pensando: “Nossa, o cara curtiu a vida adoidado”.

O protagonista, Jordan Belfort, é um corretor de ações que monta uma empresa após ser demitido de Wall Street em virtude da Segunda-Feira Negra de 19 de outubro de 1987. Mas não se limita apenas ao fato de ele ter montado uma empresa irregular. O que me gerou tanta repulsa foi a inexistência total de qualquer sentimento humano na trama. Um estilo de vida vazio, ao extremo, num mundo de homens, em que as mulheres existem para serem adquiridas apenas, não importando quem seja. Em questão de mulher, apenas a embalagem importa. Talvez a intenção seja mesmo a de rasgar nossas entranhas e de tirar todas as ilusões patéticas às quais eu, pessoalmente, me prendo com todas as forças no meu insignificante percurso de vida.

Apesar de ser uma história real, há uma certa crítica, bastante sutil, e pode ser notada na cena em que o protagonista nega a existência de outros estilos de vida, como o budismo, altruísmo ou “axiologismo”, tendo-os como “anormais”. Ou no seu vício por drogas que expõe sua irremediável infelicidade e insatisfação interior.

Saí da sala como se tivesse acabado de escutar um sermão “pseudorrealista”, esfregando na minha cara que eu, na verdade, como mulher que sou, sirvo apenas para saciar necessidades fisiológicas masculinas, mesmo que estude, trabalhe, seja independente. Enfim, no “jogo da sedução”, no fim, serei apenas um pedaço de carne. Essa é a realidade, devo aceitá-la. No fim, o estilo de vida neoliberal delineia um único modelo de felicidade: é preciso ser homem, ter carros, um casarão e muitas mulheres (as quais seriam atraídas pelo dinheiro, mas e daí?).

No entanto, o roteiro – pela fidelidade a uma biografia – não deixa claríssimo qual  opinião o filme está querendo passar. Não há aquela lição de moral que nos conforta sempre que passamos por tanto sofrimento moral. Foi então que, conversando com minha mãe, me dei conta de que o que mais me irritou não foi o filme em si, foi a reação do público. Aquela diversão sórdida que enxergava na expressão dos expectadores.

Ao descrever a hierarquia das prostitutas (desde as mais caras às mais baratas), o narrador fere toda mulher, esfrega na nossa cara que nosso valor é diretamente proporcional à quantidade de bronzeamento acumulado na pele ou de silicone implantado nos seios e inversamente proporcional às rugas e às gordurinhas acumuladas. Mas, na verdade, o que nos fere não é o filme, é a risada que isso gera na plateia. Risos de sordidez.

Enfim, após uma melhor reflexão sobre o filme, continuei achando-o extremamente perturbador, mas me dei conta de que o que mais me comoveu foi descobrir que aquela sociedade exposta na tela me cercava na sala e na vida. Descobrir que todos os meus valores são patéticos. No entanto, me fez preferir ainda mais continuar com minhas ilusões patéticas.

Futrica Econômica

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As leituras que me desafiaram a escrever estão circulando pelo Facebook e tratam do velho dualismo do Estado Interventor e do Estado Liberal.

Defendendo um Estado Interventor, meu ídolo da comédia, Gregório Duvivier; contra ele, o site Libertarianismo.org, cujo autor chama-se Rodrigo da Silva.. 🙂 Achei o último texto muito interessante.. 😀 Apesar de alguns fatos não terem sido abordados, tais como: de que maneira ter liberdade quando nem se tem dignidade (comida, educação e saúde)? É possível lutar pela liberdade, deixando de lado a igualdade?

O menor número de ações afirmativas e regulações de mercado em países “ricos” pode ser apenas uma consequência do estágio já alcançado e que torna prescindível uma maior intervenção de um Estado Social e não, um meio pelo qual se chegou a esse ponto. Será que esse tal de Estado Mínimo seria adequado para a nossa realidade de país subdesenvolvido (não acredito na falácia do “em desenvolvimento”)? Além disso, país rico não é o mesmo que país bom para se viver, com qualidade de vida. O índice mostrado pelo autor do texto é do PPP (Purchasing Power Parity ou Paridade do Poder de Compra) que se relaciona à totalidade do produto interno e é totalmente diferente de um índice de IDH, por exemplo. De acordo com o PPP, o Brasil é a 7a maior potência do mundo, o que não corresponde em nada com nosso desenvolvimento social.

Eu acho que esse é o pecado do pensamento neoliberal: é muito radical. Liberdade é, sem dúvida, imprescindível para que uma sociedade cresça, mas o que seria um mercado livre? Um mercado sem ações afirmativas? Um mercado sem direitos trabalhistas (China)? Um mercado sem regulação, sem proteção à concorrência? Será que a própria Lei protetora da concorrência não seria uma forma de regulação estatal? E a proteção às patentes? Não surgem apenas em virtude de uma atuação estatal? Ou será que a intervenção pro empresário estaria dentro da concepção liberal de liberdade, enquanto intervenções pro dignidade (como o bolsa-família) seriam apenas o reflexo da politicagem populista e assistencialista que faz as pessoas ficarem preguiçosas?

Colocar todo tipo de intervenção estatal no mesmo saco é simplório e reducionista, para não dizer ignorante.

Ninguém tem liberdade se falir pelo abuso de empresas mais fortes, se morrer de fome, se não puder tratar sua doença ou se não souber pensar e para isso é que servem as intervenções estatais, mesmo que apenas regulando a economia ou dando as condições mínimas para um povo prosperar com liberdade. A grande questão não é haver intervenção estatal ou não. Atualmente, não há Estado Mínimo (por si), principalmente entre nós, do subdesenvolvimento. Os próprios norte-americanos (liberais por essência) regulam sua economia sempre que necessário. A questão relevante é “como”? Como o Estado pode promover os direitos individuais e sociais? E acho que a resposta a essa questão está longe do dualismo preconceituoso entre ações positivas e negativas do Estado. Talvez devamos abrir mais nossos horizontes e enxergar os modelos econômicos (capitalismo, socialismo) não como fins em si mesmos, mas como meios de se alcançar a Liberdade, a Igualdade, a Solidariedade, enfim, a Dignidade Humana. Por isso, entendi a opinião do Duvivier (que só ganhou mais ainda o meu respeito), a opinião de que o Estado Mínimo (puro e simples) pode não ser a resposta que procuramos. Alguns de seus conceitos podem ajudar, mas não sejamos reducionistas.

Acho que os neoliberais de carteirinha ainda não conheceram o conceito de Estado Social.